Antidepressivos e o bruxismo: veja a relação entre eles aqui

antidepressivos e o bruxismo

Antidepressivos e o bruxismo parecem ter uma estreita relação. É o que um estudo recente demonstra.

Você recebe em seu consultório a sua paciente de longa data para o seu check-up semestral regular.

Você percebe o desgaste em seus dentes anteriores, os caninos achatados de seus posteriores e as rachaduras do esmalte. Você conversa com ela sobre o seu hábito de morder e lembra o perigo de ranger os dentes à noite durante o sono. São sinais evidentes de que a paciente está sofrendo de bruxismo.

Então ela pergunta: “O aperto de mandíbula e o ranger de dentes podem ser causados por medicação?”

Seu farmacêutico mencionou que poderia ser. Ela acha que o bruxismo só foi um problema desde que ela começou seu antidepressivo. Afinal, antidepressivos e o bruxismo tem alguma ligação?

O bruxismo é uma condição muitas vezes diagnosticada nos consultórios odontológicos.

Porém, o que um artigo recente da Australian Dental Association veio mostrar é que os antidepressivos e o bruxismo estão mesmo relacionados. O fato é que o bruxismo tende a não melhorar enquanto o paciente não cessar o uso da medicação ou, pelo menos, a reduzir.

Um artigo anterior aqui no blog já apresentou uma relação curiosa entre o uso de antidepressivos e a maior incidência de falhas em implantes dentários.

Antidepressivos potencialmente causadores de bruxismo

O bruxismo é definido como “uma atividade repetitiva da mandíbula-músculo caracterizada por apertamento ou ranger dos dentes. Apresenta duas manifestações circadianas distintas: durante o sono (bruxismo do sono) e durante a vigília (bruxismo acordado).

A incidência de bruxismo foi relatada como variando de 14 a 20% em crianças, e aproximadamente 19% em adultos.

As consequências clínicas do bruxismo incluem hipertrofia do músculo da mandíbula; erosão, fratura e falha de dentes, restaurações e implantes; sensibilidade e dor nos dentes, músculos, articulações e deslocamento do disco da articulação temporomandibular.

A causa específica determinante do bruxismo ainda não é bem compreendida. Existem vários fatores de risco identificados. São eles abuso do álcool, drogas recreativas, medicamentos, tabaco, má oclusão, altos níveis de ansiedade e distúrbios psiquiátricos. A relação entre o uso de antidepressivos e o bruxismo é uma descoberta recente.

Antidepressivos e o bruxismo – relação de medicamentos

O uso de antidepressivos e o bruxismo se apresenta mais fortemente associado a determinados fármacos. Os mais comuns são os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS).

Fazem parte do grupo dos ISRSs o citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina e sertralina. São usualmente prescritos para ansiedade e depressão. Foram relatados em vários estudos como causadores de bruxismo iatrogênico*, provavelmente devido a seus efeitos anti-serotoninérgicos e antidopaminérgicos.
* Iatrogenia é uma doença com efeitos e complicações causadas como resultado de um tratamento médico.

Os Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSNs) atomoxetina, venlafaxina e duloxetina também foram associados ao bruxismo.

Uma revisão sistemática recente mostrou que os medicamentos com maiores chances de causarem bruxismo foram fluoxetina, venlafaxina e sertralina.

O tempo médio de início do bruxismo foi de três a quatro semanas ou no escalonamento da dose.
No entanto, relatos de casos sugerem que o efeito pode ocorrer desde a primeira dose.

Tanto os antipsicóticos típicos quanto os antipsicóticos atípicos podem causar movimentos involuntários na região orofacial, incluindo bruxismo, distonia orofacial e discinesia oromandibular. Evidências de surgimento de bruxismo também se mostraram associadas ao medicamento atomoxetina. A atomoxetina é usada para o tratamento do transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

O bruxismo induzido por medicação é pouco reconhecido na odontologia.
Os dentistas devem conhecer quais medicamentos contribuem para essa condição.

Uma vez que as evidências de bruxismo se apresentem em pacientes em tratamento com essas medicações providências precisam ser tomadas. O manejo deve incluir a consulta com o médico prescritor para que a dose da medicação seja reduzida ou interrompida.
Antidepressivos associados ao bruxismo estão listados a seguir:

  • Antidepressivos: Citalopram, Duloxetina, Escitalopram, Fluoxetina, Fluvoxamina, Paroxetina, Sertralina, Venlafaxina;
  • Antipsicóticos: Clorpromazina, Flufenazina, Haloperidol;
  • Medicamentos utilizados para tratar o TDAH: Atomoxetina

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Discinesia tardia induzida por drogas

Discinesia tardia é uma condição que afeta o sistema nervoso, muitas vezes causada pelo uso em longo prazo de alguns medicamentos psiquiátricos.
As discinesias tardias são movimentos anormais persistentes e involuntários que podem envolver a face, cabeça, pescoço, membros e tronco.

As discinesias oro bucofaciais são aquelas envolvendo a face, mandíbula, lábios e língua. São essas que frequentemente são a primeira manifestação da discinesia e a forma mais comum.

Geralmente, apresentam-se como movimentos labiais, movimentos rápidos de piscar de olhos e movimentos não coordenados da língua.

As discinesias tardias podem ser estigmatizantes para os pacientes. Podem afetar negativamente tanto a adesão à medicação quanto a qualidade de vida.

Se a medicação implicada não for interrompida prontamente, os sintomas da discinesia tardia podem persistir por muito tempo após a interrupção da medicação ou se tornarem permanentes.
Acredita-se que a fisiopatologia das discinesias decorre de drogas que bloqueiam os receptores centrais de dopamina ao longo das vias dopaminérgicas. Embora outros neurotransmissores possam estar envolvidos.

A discinesia tardia não está associada à dor. Porém, a dor orofacial pode surgir de um trauma causado por movimentos anormais entre próteses e uma mucosa protetora.

Medicamentos antipsicóticos associados ao bruxismo

No passado, os antipsicóticos eram os medicamentos mais frequentemente associados à discinesia tardia devido ao seu bloqueio central dos receptores de dopamina.

Nos últimos 10 a 20 anos foram desenvolvidos antipsicóticos mais seletivos e melhor tolerados, como a ziprasidona, a lurasidona e o aripiprazol. A discinesia tardia agora raramente ocorre com essa classe de medicamentos. Porém eles ainda apresentam um pequeno risco de causar discinesias.

Esses medicamentos são classificados como antipsicóticos. Porém, ao longo dos anos suas indicações se expandiram. Atualmente são utilizados no tratamento de condições como transtorno bipolar, ansiedade, mania, abstinência de álcool, distúrbios comportamentais na demência e autismo.

Metoclopramida

A conhecida metoclopramida é um antagonista potente do receptor central da dopamina-2. Pode causar uma variedade de distúrbios extrapiramidais, sendo a discinesia tardia a mais comum.

A discinesia tardia é sempre um efeito tardio induzido por drogas, geralmente aparecendo meses a anos após o início do tratamento. O risco de discinesia tardia para a metoclopramida aumenta com a dose cumulativa e a duração do tratamento. Além de tomar medicamentos antipsicóticos, outros fatores de risco que aumentam o risco de discinesia tardia incluem interações medicamentosas, gênero e idade avançada.

Antipsicóticos mais antigos ainda são prescritos

Antipsicóticos mais antigos, como a clorpromazina, se tornaram obsoletos em psiquiatria devido à disponibilidade de medicamentos mais novos e mais seguros. No entanto, os dentistas devem estar cientes de que os antipsicóticos mais antigos ainda podem ser prescritos off-label.

Indicações não licenciadas para antipsicóticos mais antigos incluem manejo dos sintomas em cuidados paliativos, íleo paralítico, dor neuropática, soluços intratáveis, tratamento e prevenção da enxaqueca, depressão e ansiedade crônicas e coceira crônica.

Tem sido relatado que a discinesia tardia pode ocorrer em até um terço das pessoas que tomaram um antipsicótico mais antigo por 10 anos ou mais.

Antipsicóticos de primeira geração, haloperidol, flufenazina e trifluoperazina estão associados a maior risco de discinesia tardia. A clozapina apresenta menor risco. É importante salientar que a discinesia tardia induzida por drogas pode persistir por meses ou anos. Nesse caso, provavelmente será permanente mesmo após a retirada da droga.
A lista a seguir apresenta os medicamentos associados à discinesia tardia:

  • Antipsicóticos: Amissulprida, Aripiprazol, Clorpromazina, Clozapina, Droperidol, Flufenazina, Haloperidol, Lurasidona, Olanzapina, Paliperidona, Periciazina, Quetiapina, Risperidona, Trifluoperazina, Ziprasidona, Zuclopentixol.
  • Antagonistas da dopamina: Metoclopramida.

Onde encontrar bruxismo nas informações da bula do produto

Na grande maioria das vezes uma consulta à bula dos produtos não contém nenhuma seção específica dedicada aos efeitos colaterais / bucais / dentais dos medicamentos. Ou quando há alguma menção é feita de forma vaga e inespecífica.
Não é de admirar que o bruxismo seja um efeito colateral pouco reconhecido dos antidepressivos!

Concluindo

Os dentistas devem estar cientes de que os medicamentos antidepressivos, antipsicóticos e antieméticos comumente prescritos estão associados a distúrbios de movimento na região orofacial. Particularmente bruxismo, discinesia e distonia. O uso de antidepressivos e o bruxismo estão de fato relacionados.

Esses medicamentos são prescritos com frequência na comunidade em uma ampla faixa etária para uma longa lista de indicações licenciadas e não licenciadas.

Os distúrbios do movimento induzidos por medicamentos geralmente não melhoram, a menos que a dose de medicação seja reduzida ou interrompida. É provável que os dentistas tenham e venham a encontrar esses distúrbios de movimento induzidos por medicamentos. A identificação e o gerenciamento oportunos de efeitos adversos induzidos por medicamentos são essenciais para uma resolução bem-sucedida.

Fonte: Australian Dental Association

17 comments

Ótimo post
É exatamente isso , faco uso do deller ( demorei para ter a certeza de que era ele que fazia isso ) Dei um tempo de pausa maior e reiniciei . Agora consigo ver com clareza os efeitos. Meus dentes sofreram muito. Fiz uma fratura e tive que implantar . Muito sensibilidade e dor . Vou ter que substituir a medicação.

Prezada Bárbara,

Muito obrigado pelo seu comentário e participação aqui no blog Dentalis.
Aguardamos novas visitas e opiniões suas sobre as matérias aqui publicadas duas vezes por semana.

Tomo velafaxina e quitiapina e consegui fraturar a raiz do meu dente precisando implantar. A minha médica deve desconhecer esse efeito pq contando pra ela das dores que estava sentindo na região da atm ela não mencionou nada a respeito

Claudia,

Muito obrigado pelo seu comentário e participação aqui no blog Dentalis.

Rejane Lana Martins

Sempre tive bruxismo mas agora sempre me pego apertando os dentes. Estava fazendo uso da sertralina, depois troquei para fluoxetina, ecitalopran e agora zetron de quetiapina. Tenho notado que de dia minha mandíbula fica dolorida. Melhora bastante a noite devido a placa anti bruxismo para dormir. Lendo a matéria só pode ser quetiapina. Uso esse medicamento para regularizar o sono à pouco tempo.

Sou dentista recém-formado , tomei Venlafaxina por 5 anos , troquei para outra classe de medicamento.
Eu fiquei 5 anos tentando restaurar meus dentes desgastados e a resina não parava 2,3 dias .
Estou Abismado e puto porque bruxismo não está escrito na bula de nenhum anti-depressivo

Gabriel,

Infelizmente a bula de inúmeros medicamentos não contempla a totalidade de efeitos colaterais e mesmo reações adversas de muitos medicamentos.

Muito obrigado pela sua participação aqui no blog Dentalis.

Gabriel ,qual antidepressivo você está usando?

Olá. É possível primeiro o bruxismo ter aparecido devido a uma intensa ansiedade e, em um segundo momento, ter piorado ou permanecido na pessoa com o uso de um antidepressivo para tratar a ansiedade supracitada?

Sérgio,
O bruxismo apresenta causas variadas. A relação do bruxismo com o uso de antidepressivos é algo relativamente recente. O mais aconselhável em caso de bruxismo é consultar um dentista.

Muito obrigado pelo seu interesse e participação.

Olá! Tenho certeza que meu bruxismo começou por causa da sertralina. Entrei no terceiro mês de tratamento e há poucas semanas reparei que aperto a mandíbula tanto à noite quanto durante o dia, e tenho ficado atenta, tentando relaxar a região. Nunca tive bruxismo ou distúrbios do sono. A dose que eu tomo é baixissima, 25mg, que é metade da dose mínima recomendada para adultos. Na bula, o bruxismo e as contrações musculares da mandíbula estão descritos como reações adversas “sem frequência conhecida”, junto com outros males que prefiro nem comentar.

MARCELO RODRIGUES DE PAULA

Tenho problemas na ATM (minha mordida é aberta) e me aperto à noite. Sinto dores já mais de 20 anos. Tomo 12,5 ml de amitripitilina há cerca de 15 anos receitado por dentista . As dores tem piorado e por consequência o psicológico está abalado.
Seria em razão do amitril?

Caro Marcelo,

Estive pesquisando a relação da Amitriptilina com o bruxismo.
Em um dos trabalhos em que a Amitriptilina foi utilizada por um grupo controle durante 4 semanas esse antidepressivo não reduziu o bruxismo dos indivíduos que o consumiram:

https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/08869634.2001.11746147?src=recsys

Já neste outro trabalho comparativo, você poderá encontrar a informação numa tabela mostrando que a Amitriptilina exacerbou ou bruxismo:

http://sleepscience.org.br/details/153/en-US/sleep-bruxism-treatment

Isso demonstra a necessidade de que mais estudos sejam realizados para se chegar a um consenso.

Obrigado pela sua participação.

Estava fazendo uso do paroxetina, mas a médica preferiu mudar a medicação porque eu estava rangendo muito os dentes durante a noite. Agora faço uso do Sertralina, depois de duas semanas me pego apertando os dentes. não sei mais o que fazer. E a sertralina está me ajudando demais.

Prezada Monica,

Segundo o estudo que estou lhe enviando o link, antidepressivos como fluoxetina, sertralina e venlafaxina podem estar associados ao bruxismo, especialmente em mulheres:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5914744/

O bruxismo associado ao uso de antidepressivos é um fenômeno pouco reconhecido entre os neurologistas. Segundo esse mesmo artigo, pode ser tratado com a adição de buspirona, modificação de dose ou descontinuação de medicamentos.

Quaisquer alterações nos seus medicamentos e posologia somente deve ser feita com recomendação médica.
Estamos apenas lhe referenciando dados científicos que trazem informações a respeito dessa relação entre certos antidepressivos e sua associação com o bruxismo.

Recomendamos que você retorne ao seu especialista para uma consulta e reavaliação do seu tratamento.

Quais seriam boas opções de substuicao para os recaptadores da serotonina como escitalopram.

Caro Thiago,
De acordo com a literatura pesquisada, uma opção ao escitalopram não causador de bruxismo seria a bupropiona, embora esse fármaco não pertença ao grupo dos medicamentos inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
Fica o alerta de que o bruxismo em particular, pode ter sua condição aliviada ou mesmo eliminada através de um simples ajuste de dose/posologia do escitalopram.
Seja o ajuste de dose ou troca de fármaco somente e exclusivamente poderá ser realizado pelo médico prescritor, preferencialmente um neurologista, conhecedor do paciente, sua patologia e condição clínica.

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