SARS-CoV-2

Enxaguantes bucais podem impedir a disseminação da COVID-19?

enxaguantes bucais

O uso de enxaguantes bucais podem ajudar a conter a propagação do COVID-19?
Após a revisão de evidências de mais de 100 artigos, pesquisadores afirmam que sim. Ao menos, in vitro.
Ou seja, fazer bochechos orais com alguns enxaguatórios bucais pode ajudar a conter a propagação do Covid-19. Ao menos in vitro pelo que as pesquisas até agora realizadas apontaram.

Embora os pesquisadores reconheçam que alguns enxaguatórios bucais podem ter um papel importante na contenção da pandemia, eles fazem um alerta.
Mais pesquisas são necessárias para que o tema seja melhor esclarecido.
São necessárias mais pesquisas para o fortalecimento das evidências.

Os pesquisadores estudam a possibilidade de que a diminuição da carga viral, mesmo que transitória, possa ter um impacto na transmissão da doença.
Isso quando falamos de pacientes atendidos por dentistas, cirurgiões ou anestesistas.

Essa é uma ideia que precisa ser melhor avaliada. Ensaios clínicos precisam mensurar o impacto do enxágue bucal sobre o número de partículas virais ativas antes e depois do enxágue.
Em havendo a confirmação da ação, também o tempo que o efeito persiste precisará ser determinado.

Estratégia Virucida – Enxaguantes bucais

O vírus do Sars-CoV-2 é envolvido por um envelope liṕidico.
Inseridas em sua membrana estão as glicoproteínas que ele utiliza para adentrar as células.

Por mais forte que o vírus possa parecer, a sua membrana de gordura é o seu calcanhar de Aquiles.
Novos meios que viabilizem o rompimento dessa membrana vêm sendo alvo de estudos.

Agir sobre o revestimento lipídico é uma estratégia virucida bem conhecida contra muitos coronavírus.
Pesquisas anteriores demonstraram o impacto de muitos agentes nesse sentido.

Estudos anteriores já provaram que o vírus é altamente sensível a soluções alcoólicas a 60% ou 70%.
O álcool nessas concentrações causa a inativação imediata do vírus.
O uso de soluções hidroalcoólicas faz parte das recomendações da OMS.
No entanto, a mesma OMS não traz orientações sobre o uso de enxaguatórios orais como uma das formas de combate à propagação do SARS-CoV-2.
Isso se deve à escassez de pesquisas sobre a possibilidade do uso dessas soluções como armas antivirais.

Glândulas salivares e garganta – papel importante na propagação do vírus

As glândulas salivares e a garganta são as principais fontes de replicação do coronavírus. Além disso, uma carga viral alta na boca pode contribuir para a disseminação do vírus nos estágios iniciais da infecção.

Sabe-se que a garganta é um local de presença do vírus. Especialmente em doenças em estágio inicial e em indivíduos assintomáticos que também  podem ser transmissores.

Existem muitas evidências de que muitos indivíduos não apresentam sintomas, mas são positivos para o SARS-CoV-2. Isso é evidenciado pela detecção do vírus na garganta e nos cotonetes nasais.

Certezas da Ciência até os dias atuais

Níveis elevados de vírus na garganta ou nos pulmões também podem estar associados a um aumento na propensão a infectar outras pessoas. Ou seja, indivíduos com uma alta carga viral podem potencialmente ser agentes de transmissão da COVID-19.
Assim, estratégias destinadas a reduzir o número de partículas virais infecciosas nas membranas mucosas podem ajudar a reduzir o risco de transmissão.
Uma dessas estratégias está no uso de enxaguatórios bucais com capacidade de destruir o envelope lipídico do SARS-CoV-2.

Como o uso enxaguatórios bucais pode ajudar a conter a propagação do COVID-19

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores realizaram uma ampla revisão bibliográfica. Foram examinados vários ingredientes comuns presentes em soluções orais. Ativos como o álcool, clorexidina, cloreto de cetilpiridínio, peróxido de hidrogênio e iodeto de povidona.

Os pesquisadores avaliaram o potencial de cada um deles para destruição do envelope lipídico do vírus SARS-CoV-2. E por consequência também assim potencialmente reduzir a disseminação viral.

Enxaguantes bucais com álcool

Em relação ao etanol, a maioria dos estudos investigou a utilidade de concentrações mais altas do composto.
Poucos examinaram as concentrações mais baixas presentes em enxaguantes bucais disponíveis no mercado.

Poucas até o momento são as pesquisas realizadas com menores concentrações de etanol. Os resultados até agora têm sido promissores.
Dois desses ensaios, ambos realizados in vitro, produziram resultados positivos em relação à desnaturação do vírus pelos enxaguantes bucais avaliados.

Em 2007, um estudo concluiu que 20% de etanol inativou completamente três vírus envelopados – sindbis, herpes simplex – 1 e vaccinia.

Outro estudo publicado 10 anos mais tarde mostrou que uma exposição de 30 segundos a uma diluição contendo 34% de etanol impedia completamente a replicação do coronavírus.

Há “uma necessidade urgente” de realizar estudos semelhantes em condições biologicamente relevantes, como na mucosa e na boca. É o que observam os atuais pesquisadores.

A busca por respostas

Alguns pesquisadores partiram em busca de respostas. A questão chave é saber da real capacidade dos enxaguantes bucais disponíveis no mercado na destruição do envelope lipídico do coronavírus.

Em 1995, os pesquisadores testaram uma solução com 26,9% de etanol mais óleos essenciais contra herpes, gripe, rotavírus e adenovírus in vitro.

Tanto o vírus do herpes quanto a gripe (que estão envolvidos) foram afetados significativamente. Já o adenovírus e o rotavírus (que não estão envolvidos) não foram afetados. Isso levou os pesquisadores a especular que os enxaguantes bucais poderiam auxiliar na inativação do vírus.

Um estudo de acompanhamento não publicado de 2010 do mesmo grupo mostrou que uma exposição in vitro de 30 segundos a 21,6% de etanol com óleos essenciais levou a uma redução de mais de 99,99% na capacidade de infecção do influenza H1N1.

Esses estudos fornecem prova de conceito de que enxaguantes bucais contendo óleos essenciais com etanol a 21-27% podem inativar vírus envelopados. Isso tanto no laboratório quanto em humanos, com o provável mecanismo de dano ao envelope lipídico do vírus. É o que afirmam os autores da revisão.

No entanto, mais pesquisas sobre etanol em enxaguantes precisam ser realizadas, segundo os mesmos cientistas.

Outras formulações

Os estudos demonstraram que os enxaguantes bucais com álcool tiveram um efeito positivo. Porém, os estudos “foram pequenos, não cegos, relataram ou não definiram qual patógeno respiratório estava envolvido. Todos portanto, apresentam limitações.
É por isso que os ensaios clínicos em larga escala são urgentemente necessários.

Outros estudos investigaram o potencial de outras formulações de enxaguantes bucais no combate a vírus envoltos em lipídios.
A clorexidina demonstrou in vitro reduzir a concentração viral de vírus envolvidos.

Clorexidina

As formulações à base de clorexidina podem manter sua atividade antimicrobiana por até 12 horas. Segundo os pesquisadores, a combinação de soluções de clorexidina e etanol podem ser úteis na redução da carga viral por períodos mais longos.

Povidona-iodo

A povidona-iodo também foi objeto de alguns estudos em humanos. Evidenciou-se que gargarejos repetidos podem reduzir a incidência de infecções bacterianas e virais.
No entanto, a povidona-iodo está atualmente disponível apenas em alguns países asiáticos.
Além disso, reações alérgicas raras foram relatadas com seu uso.

Solução salina hipertônica

A lavagem com água clorada ou solução salina hipertônica é outra opção segundo um estudo realizado no Japão.
“No entanto, este estudo foi cego e autorrelatado, e, portanto, não pode ser considerado definitivo”. É o que afirmaram os pesquisadores.

Peróxido de hidrogênio

O peróxido de hidrogênio, destrói as membranas lipídicas através dos radicais livres de oxigênio.
Estudos anteriores mostraram que o coronavírus 229E e outros vírus envelopados são inativados.
Isso foi observado em concentrações de peróxido de hidrogênio de aproximadamente 0,5%.

O peróxido de hidrogênio em concentração acima de 5% pode danificar tecidos moles e duros. Porém, pouco dano foi observado na faixa de concentração de 1% a 3%. Essa faixa é aquela comumente usada em enxaguatórios bucais para clareamento dos dentes.

Compostos de quaternário de amônio (cetilpiridínio)

Os compostos de amônio quaternário são agentes microbicidas. Eles interferem com os componentes proteicos ou lipídicos na superfície celular. Um desses compostos é o cloreto de cetilpiridínio. Esse, recentemente, demonstrou ser ativo in vitro e in vivo contra a gripe através do ataque direto ao envelope viral.

Perguntas que aguardam respostas

Dado o potencial que essas substâncias, na forma de enxaguantes bucais, podem ter na transmissão do SARS-CoV-2, mais pesquisas são necessárias.

Essas pesquisas precisam responder algumas perguntas, como estas:

  • A carga viral na orofaringe pode ser reduzida através do enxaguante bucal?
  • Em caso afirmativo, qual enxaguante bucal pode ser clinicamente eficaz?
  • Uma combinação de agentes em quantidades menores seria melhor tolerada, reduziria efeitos adversos e manteria sua eficácia?
  • Que combinações, tempos de contato e frequência de uso podem induzir a atividade antiviral e reduzir a infectividade do SARS-CoV-2?

Para ajudar a responder a essas perguntas, os pesquisadores sugerem várias abordagens de pesquisa.
Estudos epidemiológicos podem ajudar a estabelecer em nível populacional se os enxaguantes bucais estão associados a taxas reduzidas de infecções na garganta e respiratórias, incluindo aquelas causadas pela SARS-CoV-2.

Também são necessárias mais pesquisas sobre o vírus SARS-CoV-2. Pesquisas para determinar a composição de seu lipidoma, o impacto do etanol ou de outros agentes na infectividade da proteína spike. E também e o impacto da temperatura e da carga no solo.

Qualquer estudo sobre a viabilidade potencial de enxaguantes bucais nesse contexto também precisa examinar a tolerabilidade desses tratamentos.

Teoricamente, enxaguantes bucais podem causar inflamação na garganta. Porém, em um estudo clínico, isso pode ser monitorado e determinado. Numa expectativa de curto prazo os riscos serão mínimos, desde que usados corretamente.

O fator Tempo

Apesar de muitas dúvidas, os pesquisadores esperam que novas pesquisas respondam às questões em aberto.
Se as necessárias pesquisas serão concluídas a tempo de brecar o curso da pandemia de COVID-19, aí já é outra questão.

Concluindo

Sem as evidências, não se pode fazer recomendações formais ao público.
É preciso realizar pesquisas para determinar se os enxaguatórios bucais têm algum impacto primeiro“. É o que salienta um dos pesquisadores.

Stephen Challacombe é professor de Medicina Oral na King’s College London. Ele têm uma opinião mais direta sobre essa questão.
Segundo ele os enxaguantes bucais à base de povidona-iodo são os melhores candidatos. Isso porque têm a capacidade de reduzir a infecção cruzada.
Ele considera que as provas não são de fato suficientes. Ao mesmo tempo, afirma que o risco para os profissionais de saúde é alto. E que isso justificaria iniciar-se o uso dessas soluções.

Ele também recomenda enxaguatórios com peróxido de hidrogênio a 1,5%. Embora não se saiba se possa ser inativado na presença de outra matéria orgânica.

Apesar da carência de pesquisas, ele vê pouca desvantagem no uso de enxaguantes bucais na luta contra a disseminação do COVID-19.

A opinião do professor pode ser resumida em uma declaração dada por ele “você não tem nada a perder e potencialmente muito a ganhar. Então, continue com isso.”

Como pudemos ver nesse artigo a adoção de enxaguantes bucais, como medida preventiva do COVID-19, ainda é um assunto polêmico. Requer mais pesquisas para que possamos ter certeza do melhor caminho.

O que é consenso são as precauções extras que o dentista precisa adotar de agora em diante em seus atendimentos. Essas precauções são listadas em uma matéria recente aqui do blog Dentalis.

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Fontes: Oxford Academic, SSRN, Healthing
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Novidades sobre o vírus SARS-CoV-2, causador do Covid-19

SARS-CoV-2

Afinal, o que torna o vírus SARS-CoV-2, causador da epidemia de Covid-19, uma grande ameaça?

Um novo estudo joga luz sobre essa questão. Pesquisadores da Harvard Stem Cell identificaram os prováveis tipos de células que o vírus SARS-CoV-2 infecta.

Descobriu-se que uma das principais defesas imunológicas do corpo contra infecções virais pode realmente ajudar o vírus SARS-CoV-2 a infectar essas mesmas células.

O que torna algumas pessoas mais suscetíveis ao vírus SARS-CoV-2 e o que ele faz no corpo?

Essas são questões fundamentais na busca de tratamentos mais eficazes.

Vírus SARS-CoV-2 – As células preferidas no organismo humano

O vírus SARS-CoV-2 age preferencialmente sobre células de tecidos como o revestimento da cavidade nasal, pulmões e intestino.
Essa conclusão de deu com base nos sintomas relatados pelos pacientes onde o vírus foi detectado nas análises realizadas.

Quais as células mais suscetíveis ao ataque do vírus SARS-CoV-2?

Pesquisas recentes indicam que o SARS-CoV-2 usa um receptor de células humanas chamado ACE2 para entrar nas células.

Isso acontece com o auxílio de uma enzima chamada TMPRSS2. Isso levou os pesquisadores a fazer uma pergunta simples.

Afinal, quais células do tecido respiratório e intestinal expressam ACE2 e TMPRSS2?

Para responder a essa pergunta, a equipe voltou-se para o sequenciamento de RNA de célula única. Esse sequenciamento identifica quais genes são expressos em células individuais.

Descobriu-se que apenas uma pequena porcentagem de células respiratórias e intestinais humanas produzem ACE2 e TMPRSS2.

Essas células se dividem em três tipos.

São elas: células no nariz que secretam muco, células pulmonares que ajudam a manter os sacos de ar e células que revestem o intestino delgado e estão envolvidas na absorção de nutrientes.

Dados de primatas não humanos mostraram um padrão semelhante de células suscetíveis.

Muitas linhas celulares respiratórias existentes podem não conter a mistura completa de tipos de células. Também podem faltar as que são relevantes.
Depois de entender quais células estão mais sujeitas à infecção surge uma nova questão.

Existe algo dentro dessas células que de alguma forma contribua para o ciclo de vida do vírus?

Esse é um dos focos de pesquisa.

Os estudos prosseguem e buscam descobrir quais medicamentos podem interromper esse ciclo e acelerar a cura do Covid-19.

Interferon: útil ou prejudicial?

No começo o alvo do trabalho era identificar os tipos de células suscetíveis ao SARS-CoV-2.
Depois os pesquisadores descobriram que o gene ACE2 é estimulado pelo interferon. O interferon é uma das principais defesas imunológicas do corpo quando ele detecta um vírus.
No entanto, detectou-se um problema.
Na prática, o interferon passou a ativar o gene ACE2 em níveis mais altos. Isso potencialmente dá ao vírus novos portais para entrar. Ou seja, o interferon pode ser tornar uma aliado do SARS-CoV-2, facilitando sua entrada nas células humanas.

Trabalho em conjunto

Os pesquisadores buscam descobrir com detalhes as ações do vírus nas células. E também estudar amostras de tecidos de crianças e adultos.
Isso tudo para entender porque o Covid-19 é tipicamente menos grave em pessoas mais jovens.

Tudo isso é fruto de um grande esforço e trabalho em conjunto da comunidade científica mundo afora.
Vários pesquisadores e colaboradores em todo o mundo compartilham diariamente novos dados e achados.
Tudo isso para que se consiga alcançar um progresso na resolução dessa pandemia no menor prazo possível.
É ao mesmo tempo inspirador ver o que se pode alcançar quando todos se reúnem para resolver um problema.

Tem dúvida sobre a pandemia de Covid-19? Neste link você poderá encontrar uma matéria completa no site com tudo sobre essa doença de alcance mundial.

Fontes: Harvard Stem Cell Institute, ScienceDirect
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