tutorial

Guia rápido de antibióticos para estudantes de odontologia

guia rápido de antibióticos

A resistência aos antibióticos está se tornando um problema mundial e representa uma grande ameaça à saúde pública. Com a pandemia em andamento e a prescrição excessiva de antibióticos, esse risco está crescendo exponencialmente. Um guia rápido de antibióticos surge como um aliado essencial para o dia a dia profissional e estudantil do dentista.

Os prescritores precisam agir ainda com mais responsabilidade e zelo ao prescrever antibióticos.
É preciso estar bem ciente do que se está prescrevendo. E também da forma como o antibiótico está sendo prescrito.
O conhecimento básico de farmacologia é a base fundamental para fazer isso.

Na odontologia, usamos três grupos principais de antibióticos. Podemos categorizá-los por seu mecanismo de ação.

Este pequeno guia rápido de antibióticos pretende cobrir o mecanismo de ação desses grupos e quaisquer advertências importantes.

Guia rápido de antibióticos

1. Inibidores da síntese de parece celular

Os antibióticos B-lactâmicos e glicopeptídicos interrompem a síntese do componente primário da parede celular bacteriana. A camada de peptidoglicano.

Eles inibem irreversivelmente uma importante enzima chamada transpeptidase. Isso evita a reticulação das unidades da parede celular das bactérias. O resultado disso é uma parede celular disfuncional. Por consequência, essa parede celular sofre lise celular (rompimento) e morte das bactérias. Portanto, os antibióticos pertencentes a essas classes são bactericidas.

O grupo dos antibióticos beta lactâmicos é formado pelas penicilinas, cefalosporinas, cefamicinas, carbonêmicos, monobactâmicos dentre outros.
Os principais representantes dos glicopeptídicos são: vancomicina, teicoplanina e ramoplanina.

Advertências

  • Cerca de uma em cada 15 pessoas é alérgica a antibióticos, especialmente penicilina e cefalosporinas;
  • As penicilinas podem resultar em reações de hipersensibilidade. Reações como erupções cutâneas e anafilaxia. Também podem provocar diarreia.
  • Infusão rápida de vancomicina pode causar liberação de histamina, situação que pode causar a “Síndrome do Homem Vermelho“. Essa síndrome é caracterizada por arrepios ou febre, desmaio, aceleração dos batimentos cardíacos, quedas de pressão, coceira na pele, náusea ou vômito, erupção e vermelhidão na parte superior do corpo. As reações relacionadas com a infusão são raras se a Vancomicina for administrada corretamente.

2. Inibidores de síntese de proteínas

Os aminoglicosídeos e as tetraciclinas inibem a subunidade 30s dos ribossomos dentro de uma célula bacteriana.

Os aminoglicosídeos causam danos irreversíveis à subunidade 30s. Isso impede a produção de proteínas e resultando na morte celular da bactéria. Portanto, é bactericida.

As tetraciclinas, no entanto, causam danos reversíveis, o que retarda a produção de proteínas sem causar a morte celular bacteriana. Portanto, é bacteriostática.

Da mesma forma, macrolídeos e lincosamidas são bacteriostáticos. Ambos causam danos reversíveis à subunidade dos anos 50 dos ribossomos.
Os principais macrolídeos são a eritromicina, claritromicina, azitromicina.
As principais características das lincosamidas são: clindamicina e lincomicina.

Advertências

  • As tetraciclinas são contra-indicadas em mulheres grávidas e crianças menores de 12 anos. Isso por conta da quelação de íons de cálcio nos dentes e ossos em desenvolvimento, o que provoca manchas e, ocasionalmente, hipoplasia dentária;
  • A eritromicina potencializa o efeito do midazolam e da sinvastatina. Não use em combinação com qualquer um deles;
  • A clindamicina pode causar colite pseudomembranosa.

Inibidores da síntese de ácido nucleico

O metronidazol bactericida é ativado pela oxidorredutase, uma enzima das bactérias anaeróbias. Ele se difunde nas células bacterianas e produz radicais livres, que danificam o DNA bacteriano e, por fim, resulta em sua morte celular.

Porphyromonas gingivalis é um exemplo de bactéria anaeróbica.
É comumente encontrado na boca, mas também é pensado para estar relacionado à artrite reumatoide.

Advertências

  • Evite álcool ao tomar metronidazol. Se tomado em combinação, pode ocorrer uma reação semelhante ao dissulfiram. Os sintomas incluem náuseas e vômitos graves.
  • Outros efeitos colaterais do metronidazol é diarreia ou gosto metálico na boca;
  • Não prescreva metronidazol para pacientes em uso de varfarina (anticoagulante).

Quando prescrever

Quando um paciente é atendido com reclamações de dor, sempre que possível, use medidas locais para resolver o problema.

Por exemplo, se a dor for causada por um abscesso dentário, as opções são:

  • Incisão de abscessos de tecidos moles;
  • Acesso aos canais radiculares para aliviar pus;
  • Ou extração do dente agressor.
  • No caso de pericoronarite, debridar e irrigar as áreas de estagnação.
  • Quando há gengivite / periodontite ulcerativa necrosante (NUG / NUP), as medidas locais incluem descamação e instruções de higiene oral.

Justificativa da prescrição de antibióticos

Este guia rápido de antibióticos tem como foco priorizar seu uso apenas quando realmente são necessários à terapia. Caso as medidas locais falharem ou houver evidência de disseminação de infecção, ou envolvimento sistêmico, considere então a prescrição de antibióticos.

Dê preferência a antibióticos de primeira linha para combater o problema. No entanto, se o antibiótico de primeira linha for contra-indicado (alergia, gravidez, álcool, etc.), considere a alternativa de segunda linha.

Exemplos

Abscesso dental

  • Primeira linha de antibióticos: Amoxicilina, 500 mg, 3 vezes ao dia, por 5 dias;
  • Segunda linha de antibióticos: Metronidazol, 400 mg, 3 vezes ao dia, por 5 dias.

Periodontite ulcerativa necrosante (NUG / NUP) ou pericoronarite

  • Primeira linha de antibióticos: Metronidazol, 400 mg, 3 vezes ao dia, por 3 dias;
  • Segunda linha de antibióticos: Amoxicilina, 500 mg, 3 vezes ao dia, por 3 dias.

Lembre-se de prescrever antibióticos apenas se apropriados para a condição do paciente. Não prescreva porque você se sinta pressionado pelo paciente a fazê-lo.

Resumindo

Existem uma base muito grande de informações sobre antibióticos. Esse guia rápido de antibióticos destaca as principais classes de antimicrobianos usados em odontologia. São aqueles que atuam pela inibição da síntese da parede celular, síntese de proteínas ou de ácido nucleico.
Verifique se há interações medicamentosas ou contra-indicações ao prescrever antibióticos.
Certifique-se de usar primeiro as medidas locais e prescrever antibióticos apenas quando necessário e análise caso a caso.

Este outro artigo discute o uso preventivo de antibióticos em implantes dentais.

Fontes: Prescribing antibiotics for urgent dental care during the pandemic, Kohanski MA, Dwyer DJ and Collins JJ (2010) How antibiotics kill bacteria: From targets to networks
Posted by Victor in Dicas, Estudos, 0 comments

Tira-dúvidas sobre o zika vírus

sobre o zika virus
1. De onde vem esse vírus?
Ele foi descrito pela primeira vez em 1947 e, até então, infectava macacos da floresta de Zika, em Uganda — daí seu nome. Em 1952, esse país africano identificou o primeiro caso em humanos. Na época, os visitantes da região só pegavam o vírus esporadicamente. “Após uma sucessão de tentativas, o zika conseguiu estabelecer uma cadeia de transmissão envolvendo mosquitos e seres humanos”, explica o biomédico Caio Freire, da Universidade de São Paulo. Essa evolução permitiu que ele expandisse seu território.
 
2. Como o zika chegou ao Brasil?
Há duas suspeitas: a Copa do Mundo de 2014, que trouxe muitos estrangeiros, e um campeonato de canoagem realizado ano passado no Rio de Janeiro, que contou com a participação de nações do Oceano Pacífico, como a Polinésia Francesa e a Micronésia. Esses locais foram os primeiros a sofrer surtos de zika, e a linhagem que se instalou aqui é a mesma de lá. “O vírus encontrou um ambiente perfeito no país. Bastante gente e uma enorme população de mosquitos”, observa Freire.
 
3. Além do mosquito, há outras formas de contágio?
O Aedes aegypti é o principal vetor mesmo. Mas não dá pra dizer que é o único. Até agora, foi comprovado um caso de transmissão por via sexual e outro por transfusão de sangue. Há indícios também de que o vírus seria carreado pelo leite materno. Tudo leva a crer, porém, que são situações atípicas. O pernilongo é o maior foco de preocupação. “Se tivéssemos combatido melhor o Aedes, provavelmente não estaríamos passando por isso”, avalia Bianca Grassi de Miranda, infectologista do Hospital Samaritano de São Paulo.
 
4. Quais os reais sintomas da infecção pelo zika?
O ataque do vírus é considerado leve na maioria das vezes. Tão brando que 80% dos infectados não apresentam sintomas. Já o grupo dos 20% tem um quadro parecido com o da dengue: febre, dores no corpo, manchas vermelhas e até diarreia e vômito. O mal-estar dura entre três e sete dias. “A doença costuma ser autolimitada, ou seja, dura um período determinado e é eliminada pelo próprio organismo sem grandes repercussões”, esclarece Bianca. Ainda assim, pode cobrar uma visita ao hospital.
 
5. Quais as principais diferenças em relação à dengue?
Por causa da familiaridade entre esses vírus (e o chicungunya também), as manifestações confundem. “A Organização Mundial da Saúde parte do pressuposto de que são doenças idênticas”, conta o infectologista Marcelo Mendonça, do Hospital Santa Paula, na capital paulista. “Tanto é que investigamos o zika só depois de descartar os outros”, completa. Um sinal mais comum do novo inimigo é a vermelhidão nos olhos. Só que apenas um exame é capaz de cravar a distinção.
 
6. E como é feito o diagnóstico?
Ele ainda é cercado de desafios. Primeiro os médicos precisam eliminar outras suspeitas. Depois, o protocolo pede que o indivíduo passe por um teste sanguíneo apto a acusar o vírus. A questão é que essa técnica é cara e, por ora, só destinada a casos mais graves. Para ampliar o acesso ao tira-teima, pesquisadores brasileiros já estão trabalhando em cima de um exame que usa um método parecido com o da sorologia para o HIV. Mais barata, essa análise flagra anticorpos criados pelo organismo em resposta ao zika.
 
7. Existem perfis de maior risco para a infecção?
Por enquanto, a preocupação ronda sobretudo as mulheres no início da gestação, porque o vírus consegue atravessar a placenta e chegar ao feto. No pequeno, ainda indefeso, o zika pode comprometer o desenvolvimento do cérebro e do crânio. Mas não são só bebês que estão sujeitos a transtornos. “Pessoas com déficit no sistema imunológico, como as que se tratam contra um câncer, tendem a enfrentar quadros mais severos”, exemplifica Bianca. Ainda se enquadram nesse grupo portadores de doenças autoimunes.
 
8. Como o vírus causa microcefalia?
Nos primeiros meses da gravidez, a imunidade do feto ainda não está estabelecida. “Assim, o vírus, que tem preferência pelo cérebro, consegue se instalar ali sem encontrar resistência”, explica a neuropediatra Silvana Frizzo, do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. O invasor até vai embora, mas as sequelas de sua estada duram para sempre. A microcefalia ocorre quando o perímetro da cabeça do bebê não se desenvolve mais do que 32 centímetros. E essa limitação no crânio vem acompanhada de danos à massa cinzenta.
 
9. Como a microcefalia repercutirá na vida dessas crianças?
O cérebro delas cresce menos e apresenta malformações, além de pequenas lesões que se calcificam — o que está por trás de convulsões e déficits motores. “Fetos acometidos no início da gravidez, como observamos com o zika, estão suscetíveis às complicações mais sérias. Mas ainda não sabemos ao certo como será o desenvolvimento deles”, diz Silvana.
 
10. O zika pode afetar o sistema nervoso dos adultos?
Sim. Tudo indica que ele tem atração especial pelos nervos. “Nos adultos, o vírus não chega ao cérebro porque é anulado antes, mas pode servir de gatilho à síndrome de Guillain-Barré”, esclarece Silvana. Essa condição, não tão comum, é caracterizada pelo ataque das células de defesa a terminações nervosas. É como se o vírus plantasse a discórdia interna. A síndrome causa paralisia nos membros e requer internação hospitalar. Ainda bem que, com tratamento certo, é revertida em médio prazo.
 
11. Existe tratamento para a infecção?
Assim como na dengue, não há remédios que combatem o vírus em si. Logo, os médicos tratam os sintomas e previnem complicações. Para os adultos, a situação não costuma ser tão penosa, já que a infecção é inofensiva na maioria das vezes. Pessoas que evoluem para a síndrome de Guillain-Barré são internadas e tratadas com drogas imunossupressoras. Crianças em geral pedem um olhar mais atento. E os pequenos com microcefalia tendem a necessitar de acompanhamento especializado pelo resto da vida.
 
12. Uma epidemia de zika pelo Brasil é possível?
Não só é possível como muito plausível que isso aconteça. “O Aedes aegypti existe em todo o país e, no verão com chuvas, o clima é favorável à sua reprodução”, justifica Marcelo. Há outro alerta no ar: o vírus não para de evoluir. “Uma mutação pode ter aumentado sua capacidade de se replicar e se propagar, fazendo com que se espalhe mais facilmente”, conta o virologista Paolo Zanotto, da Universidade de São Paulo, coautor de um estudo que identificou essa provável metamorfose.
 
13. Faz sentido comparar com a história do HIV?
Não muito. “É difícil traçar um paralelo, já que as vias de transmissão e formas de prevenção são totalmente diferentes”, analisa Marcelo. Com o aparecimento de uma doença praticamente desconhecida, é natural surgirem boatos e informações desencontradas. Exemplo: circularam notícias na internet ligando o surto de zika aos mosquitos geneticamente modificados usados em algumas regiões brasileiras no controle da dengue. O caso já foi desmentido pelo Ministério da Saúde.
 
14. O que está ao seu alcance para se prevenir?
A estratégia mais sensata e eficaz hoje é atacar o vetor. Então temos de ficar de olho nos criadouros do mosquito e eliminá-los. Ou seja: água parada, jamais! Para reforçar essa ação coletiva, campanhas de conscientização devem pipocar pelo país durante o verão. O Ministério da Saúde recomenda ainda o uso de repelente no corpo todo, inclusive por cima das roupas, especialmente para as futuras mamães.
 
15. Onde mora o problema?
Casos de microcefalia ligados ao zika já foram registrados em 18 estados brasileiros — e a projeção é de crescimento no verão.
O raio X do vírus
O zika pertence à família dos flavivírus, assim como o chicungunya e a dengue, e, a exemplo deles, é transmitido por mosquitos. Sabe-se até agora que ele se multiplica rapidamente e tem alta capacidade de sofrer mutação. A suspeita é que o vírus vem aperfeiçoando sua interação com as células humanas, o que lhe tem garantido maior sucesso no contágio e na propagação.
O raio x do mosquito
O Aedes aegypti é um para-raio de agentes patogênicos — só no Brasil, três vírus pegam carona nele. O mosquito listrado gosta de temperaturas altas, entre 25 e 30 ˚C, e clima úmido. Apesar de ter hábitos diurnos, a fêmea também pica à noite. Por voar baixo, costuma atingir principalmente pés e pernas. Dá-lhe repelente no verão!
Posted by Victor in Estudos, 2 comments